Esta entrevista foi feita com perguntas de leitores enviadas pelo site www.epocanegocios.com.br.  As respostas são de Oscar Motomura, fundador da Amana-Key, que já treinou mais de 30 mil executivos.

1. Como o senhor descreveria as competências essenciais para uma liderança eficaz? Existe alguma receita? Marcos Moreira | Fortaleza, CE
Essenciais são as competências humanas, de quem “entende de gente” pela prática, numa grande diversidade de pessoas e situações. Que propicia, inclusive, diferentes encontros com seu próprio ego… Mas não há receitas (embora muitas empresas trabalhem com algum tipo de prescrição e, por isso, fiquem cegas para a essência das coisas). Quer uma dica? Desafie-se o tempo todo com questões que evitem acomodação em zonas de conforto: liderança visando a números ou bem-estar? Para si, para poucos ou para todos? Como seria liderar em contextos difíceis, de recessão, guerras, corrupção?…

2. Como um executivo ou uma executiva pode energizar sua equipe a fim de melhorar os resultados?Nayara Cristina da Silva | Trindade, GO
Não há fórmulas. Tudo depende do contexto e das pessoas envolvidas. No fundo, os executivos sabem o que fará a motivação de seu pessoal ser potencializada. A hesitação e a insegurança estão associadas à falta de confiança na intuição e no que sentem, principalmente se as medidas imaginadas forem diferentes em relação às práticas mais aceitas no meio empresarial.

Um ponto para reflexão nesse sentido: como gerar o tipo de motivação que os voluntários têm? Como motivar de maneira genuína, sem nenhum tipo de prêmios artificiais? Como motivar com foco em algo maior, para a sociedade e o planeta?

3. É realmente eficaz para a empresa ter uma política de treinamento de seus empregados? José Carlos Lucena | Rio de Janeiro, RJ
Política no sentido de diretriz, filosofia de educação e desenvolvimento de pessoas para o futuro? Sim, com certeza. “Política de treinamento” como jeito oficial de fazer, que engessa, não. ( Melhor não ter, pois assim os próprios líderes tenderão a criar formas inovadoras e “sob medida” de capacitar suas equipes.) Treinamento no sentido de “adestramento”, condicionamento mecânico de pessoas, não. No sentido de acumular informação e conhecimento, não. Para usar bem o conhecimento a serviço do cliente e da sociedade, sim. Só teoria, não. Maestria em fazer acontecer, sim.

4. Como conciliar a necessidade de padronização nas empresas com criatividade e inovação? Samuel Rezende | São Leopoldo, RS
Antes de tudo, com o essencial: um time de pessoas criativas. Mesmo com muita padronização, elas tenderão a inovar. Se a empresa seleciona somente pessoas conformistas e obedientes, terá padronização burocrática e insatisfação dos clientes. Procedimento-padrão só gera perfeição com máquinas. Se há pessoas envolvidas, o processo é “biológico” e precisa da engenhosidade humana para funcionar bem. E, no biológico, o fundamental é ter princípios (que padronizam a essência e não a forma, e deixam espaço para o “sob medida”).

5. O RH pode identificar talentos natos que não comprovam qualidades no currículo? Eduardo Reis | Rio de Janeiro, RJ
Vejo a capacidade de detectar talentos mais freqüentemente em empreendedores de grande sucesso (talentos detectam outros talentos?). Livres das “exigências institucionais” das grandes corporações, que tentam padronizar o processo de seleção e promoção de talentos, esses empreendedores podem se dar ao luxo de ser intuitivos ao montar suas equipes. Aqui, os gênios autodidatas têm mais chance. Mas é bom lembrar que os verdadeiros gênios criam as próprias oportunidades, quando decidem fazê-lo.

6. Como aliar produtividade e resultados exigidos pela empresa à qualidade de vida e bem-estar da equipe? Edson Bucci | Campinas, SP
Em teoria, uma coisa deveria alavancar a outra. A pergunta provavelmente nos remete aos extremos: métodos de atuar sobre produtividade que comprometem o bem-estar da equipe, e o contrário (equipe muito bem e produtividade em declínio). O desafio é de equilíbrio e de criatividade radical, “fora da caixa”. E não mirando o nível de 50/50, mas de 100/100 (máxima produtividade e máximo bem-estar). E isso só se consegue se todos (da cúpula à base) trabalharem a equação 100/100 em conjunto.No fundo, não é difícil chegar ao ponto ideal. Difícil é assegurar que a cúpula participe desse processo de criação conjunta.

7. Qual a sua avaliação a respeito das ações de responsabilidade social das empresas no Brasil?Roberto Linhares | Belo Horizonte,BH
Vejo com otimismo. Fala-se mais a respeito e o tema (assim como o da responsabilidade ecológica) está mais explicitamente na mesa de decisão.Algumas empresas estão totalmente engajadas, da cúpula à base, tanto no social como no ecológico. E é algo genuíno. Em outras, é algo parcial, tímido, controverso. Há ainda outras que fazem só o que dá ganho de imagem. Não é autêntico. E, é claro, temos as que nada fazem e assumem que nada têm a ver com o assunto. No fundo, trata-se de algo complexo. Uma mudança cultural de toda a comunidade de negócios. E temos como acelerar.

8. Como empreender um negócio econômica e ambientalmente sustentável, num mundo cada vez mais disperso pelos avanços tecnológicos? Gledson Silva | Brasilia, DF
Sendo uma pessoa centrada em um propósito maior, com a intenção genuí­na de servir à sociedade e ao planeta. Tendo isso como núcleo de tudo, torna-se possível “surfar” nesse mundo disperso, diverso, em contínuo processo de transformação, dependendo cada vez menos de uma “ordem hierárquica.” E contando cada vez mais com o poder aglutinador dos propósitos que visam ao bem comum e à força da auto-organização. E quanto às competências para “surfar” com grande eficácia nesse ambiente fluido e em contínua mutação? Essa deixo para você pensar…

9. Como formar empreendedores se há tão pouco sendo desenvolvido com as crianças nas escolas?Zailton Cardoso de Miranda | Lorena, SP
Nosso maior desafio está na educação. Mas na educação de todos, principalmente de adultos em todas as áreas e profissões. Educação e reeducação inclusive de líderes no governo, nas empresas, nas escolas, na sociedade como um todo. Como falar de crianças sem tratar da educação, reeducação dos próprios pais, dos próprios professores? Como falar do pouco que se faz pelas crianças sem tratar do muito que se faz pela deseducação delas no dia-a-dia? Como podemos sair dos diagnósticos e críticas e partir para as soluções? Não seria o que os cidadãos-empreendedores fariam?

10. Qual a melhor herança que podemos deixar para nossos filhos? Sergio Lazzari | São Paulo , SP
Em minha opinião, é a capacidade de fazer acontecer, que é chave em qualquer atividade. Mas há jeitos e jeitos de fazer isso. Fazer com consciência significa levar em conta o bem comum (a essência da ética). E fazer com leveza (em contraposição a fazer com excesso de esforço e estresse) é a essência da verdadeira maestria. Nosso melhor legado é assegurar que desde pequenos nossos filhos sejam polidos nessa competência, nesses valores, nesse jeito de ser. Não dá para deixar isso para a escola nem para a faculdade…