Ex-funcionário da Apple considerado um dos responsáveis pelo sucesso do primeiro computador pessoal da marca debateu sobre inovação em São Paulo. Kawasaki falou sobre o que considera os 10 passos para a inovação. Este texto foi extraído do portal Terra



Guy Kawasaki poderia ser o investidor em novas empresas com o perfil padrão, engravatado e polido. Que nada, tem mais o perfil de ex-funcionário da Apple mesmo, companhia que, nas suas palavras, perdeu o título de mais egocêntrica do mundo para o Google. De camisa colorida e com as mangas de fora, ele falou hoje em São Paulo sobre os dez passos (na verdade, onze) de como criar algo inovador (uma empresa, um serviço) nos dias atuais. “Grande parte dos CEOs de empresas são uma porcaria como palestrantes. E eles falam demais, por muito tempo, o que é uma combinação ruim”, afirmou. “Por isso, então, os 10 pontos sobre inovação” – que ele discorreu em uma hora, cheio de exemplos e citações.

“Fazer sentido no mundo é o primeiro ponto”, explica Kawasaki. “Não adianta contratar um monte de gente com MBA só pelo dinheiro. Tem que pensar que seu projeto deve melhorar o mundo também”. Não falou da Apple, mas citou a Nike como um bom exemplo nisso. “O segundo ponto é tenha um mantra. Não é a missão da empresa. Nos Estados Unidos, companhias reúnem 60 pessoas por dois dias num hotel com campo de golfe e praia. Chamam alguém de fora pra conduzir a reunião, provando que não têm nenhum executivo líder, e cada um fala uma palavra. Logo, a missão tem 60 palavras, gerando algo muito longo e pouco útil”. Um bom mantra corporativo, na visão de Kawasaki, tem duas ou três palavras no máximo.

O terceiro ponto é “ficar além da curva”. Sua empresa tem que pensar além e inovar de tal modo para ficar à frente da concorrência. “Não é 10% ou 15% melhor, é dez vezes melhor. Um exemplo é a migração das impressoras matriciais para as laser. Ou as fábricas de gelo: primeiro removiam o gelo pronto, o gelo 2.0 surgiu com as fábricas de gelo, sendo substituído pela geladeira doméstica. A inovação real surge quando você pula para o próximo estágio sem medo”, disse Kawasaki. “Fazer apostas, jogar os dados, é algo importante. Uma fabricante de sandálias, a Reef, lançou um chinelo com abridor de latas no solado. É uma grande ideia, assim como uma TV que vem com conexões sem fio. Grandes produtos são elegantes, profundos e completos”, afirmou.

Para tanto, nem todo mundo é perfeito. O quinto item da lista de Kawasaki é “não se preocupe, faça errado”. Na prática, ele quer dizer que alguma coisa errada pode acontecer com seu produto. “A primeira impressora laser era lenta e fazia uma página por vez. Revolucionária, mas uma porcaria. O primeiro Mac, com 128 k de RAM, sem software e sem disco rígido, era uma porcaria revolucionária”. Isso leva ao sexto ponto, que é o florescimento do seu produto. “Ao lançar qualquer coisa, você vai perceber que as pessoas usam seu produto de modos que você nunca imaginou. E gente errada o compra em grandes quantidades. A primeira coisa a fazer é tirar o dinheiro delas”, afirmou o investidor. “O Mac não tinha editor de texto, de planilha nem banco de dados. Mas a editoração eletrônica, que estava nascendo na mesma época, salvou a Apple”.

Por ser ex-funcionário da Apple, muitos dos temas abordados por Kawasaki lembram, claro, a empresa de Steve Jobs. O sétimo item é um deles: polarize as pessoas. “É como um carro feio da Toyota, o Scion. Foi feito para jovens esportistas, mas acaba sendo vendido para sexagenários em busca da juventude perdida. Não tem que irritar as pessoas intencionalmente, mas é bom criar uma relação de amor e ódio sobre o que você faz”. O oitavo ponto fala para “engrenar um modo de negação e não ouvir ninguém quando cria algo, mas após lançá-lo começar a corrigir sua inovação”, e o nono pede para criar nichos para seu mercado ¿ é aí que você vai ganhar dinheiro numa relação de valor versus algo único. “Se não é único não tem valor”, disse. “Exemplos são um serviço de compra de ingressos de cinema com antecedência, uma TV fina e sem fios, um relógio que pode salvar sua vida ao chamar a emergência se você se perder no mato e até mesmo um carro que estaciona perpendicularmente à rua”, afirmou.

O décimo ponto de Kawasaki é direto ao ponto contra os enroladores do PowerPoint: é a regra do 10-20-30. Uma apresentação deve ter no máximo 10 slides, para ser mostrada em no máximo 20 minutos e sempre feita com fonte tamanho 30. “Uma regrinha é observar quem é o mais velho na platéia e dividir sua idade por dois. Deve dar 30, na média”.

Kawasaki fechou sua palestra com o décimo primeiro item da sua lista: não deixe os “bozos” te derrubarem. O que ele quis dizer aqui é que sempre vai ter alguém com uma ideia pessimista, do mal ou simplesmente do contra. “Existem dois tipos de bozos: o gordo ensebado, que não é perigoso, e o que se veste de preto, rico, famoso, esperto. Pena que 50% das vezes é apenas sorte, não esperteza”. Ele mesmo admite já ter agido como um “bozo” na sua carreira: recebeu um convite para o processo de seleção do CEO do Yahoo!. Não foi porque era longe e ele tinha acabado de ter o primeiro filho. “E se eu tivesse ido à entrevista? Não me irrita ter perdido 1 bilhão de dólares. O segundo bilhão é que me deixa doido da vida. Eu fui um bozo, vinha do mercado de hardware e não consegui entender a internet, não vi a próxima curva”, concluiu.